Yijing · 易經 · Livro das Mutações

問卦之法O Jogo do I Ching

Regras e passo a passo da consulta

Como se formula a pergunta, como se lançam as moedas ou as varetas, como se monta a figura de baixo para cima, o que são as linhas mutantes e em que ordem se lê o que apareceu.

1. Antes de tudo: o que se está fazendo

O I Ching não é um aparelho de previsão. Ele não diz o que vai acontecer, e quem o usa esperando isso sai sempre frustrado ou iludido. O que o livro faz é descrever a qualidade do momento presente e a direção em que esse momento tende a se transformar, deixando para quem consulta a tarefa de reconhecer a própria situação naquela descrição.

O sistema parte de uma ideia única: nada é estático. A realidade é um jogo permanente entre dois princípios, o yang (criativo, luminoso, ativo) e o yin (receptivo, escuro, cedente), e toda situação é um arranjo momentâneo dessas forças, já em processo de virar outra coisa. As sessenta e quatro figuras do livro são as sessenta e quatro maneiras possíveis de arranjar seis dessas linhas. Não há uma sexagésima quinta.

A consulta é um espelho, não uma sentença. O oráculo devolve a pergunta transformada em imagem, e o trabalho interpretativo continua sendo de quem perguntou.

Carl Jung, ao prefaciar a tradução de Richard Wilhelm, criou o conceito de sincronicidade justamente para descrever o que ali acontece: não uma causa produzindo um efeito, mas uma correspondência significativa entre o estado interno de quem pergunta e um gesto aparentemente aleatório. Aceitar ou não essa explicação é uma escolha de cada um. O método, em todo caso, é o mesmo.

Quando consultar, e quando não

2. A pergunta

Esta é a parte mais decisiva do método e a mais negligenciada. A qualidade da resposta é limitada pela qualidade da pergunta, e a maioria das consultas frustradas fracassa aqui, e não no lançamento.

O I Ching responde mal a perguntas de sim ou não, porque ele não trabalha com duas alternativas, e sim com a descrição de um campo de forças. Responde mal a perguntas sobre o que outra pessoa vai fazer, porque a única situação que ele descreve é a de quem consulta. E responde mal a perguntas com data marcada, porque a noção de tempo do livro é qualitativa: ele fala de estações de um processo, não de calendário.

Perguntas que funcionam

Perguntas que não funcionam

Escreva a pergunta antes de lançar, com todas as letras. Escrever obriga a precisar o que se quer saber, e é comum que a pergunta mude de forma durante a escrita, o que já é metade do trabalho. Uma pergunta por consulta.

3. A anatomia da figura

A linha

A unidade mínima. Ou é inteira, e então é yang, ou é partida ao meio, e então é yin. Nada além disso.

O trigrama

Três linhas empilhadas. Como cada uma tem dois estados possíveis, há oito trigramas, e apenas oito. São eles que carregam as imagens naturais do sistema, e todo o simbolismo do livro se apoia nelas.

TrigramaNomeImagemAtributoLinhas, de baixo para cima
乾 QiánO CriativoCéuForça, iniciativainteira, inteira, inteira
兌 DuìO AlegreLagoSerenidade, prazerinteira, inteira, partida
離 LíO AderenteFogoClareza, dependênciainteira, partida, inteira
震 ZhènO IncitarTrovãoMovimento, choqueinteira, partida, partida
巽 XùnO SuaveVentoPenetração, docilidadepartida, inteira, inteira
坎 KǎnO AbismalÁguaPerigo, profundidadepartida, inteira, partida
艮 GènA QuietudeMontanhaImobilidade, repousopartida, partida, inteira
坤 KūnO ReceptivoTerraEntrega, sustentaçãopartida, partida, partida

O hexagrama

Dois trigramas sobrepostos: o de baixo, chamado interior, que descreve o que se passa dentro de quem consulta ou o que está em formação; e o de cima, chamado exterior, que descreve o que se apresenta ao mundo ou o que já se manifestou. Oito trigramas embaixo multiplicados por oito em cima resultam em sessenta e quatro figuras.

Cada uma delas tem nome, um texto chamado Julgamento, que é a resposta do oráculo à situação, um texto chamado Imagem, que traz sempre um conselho de conduta tirado da combinação dos dois trigramas, e o texto de cada uma das suas seis linhas, num total de trezentas e oitenta e quatro linhas no livro inteiro.

4. Primeiro método: as três moedas

É o método mais usado hoje, e o mais rápido. Leva cerca de dois minutos. Servem três moedas iguais, de qualquer tipo, embora a tradição prefira as antigas moedas chinesas de bronze com furo quadrado no meio.

  1. Escreva a pergunta e mantenha-a em mente.
  2. Segure as três moedas juntas nas mãos em concha e lance-as sobre uma superfície plana.
  3. Some os valores: cada cara vale 3, cada coroa vale 2. A soma será sempre 6, 7, 8 ou 9.
  4. Anote a soma. Ela é a primeira linha do hexagrama, a linha da base.
  5. Repita o lançamento mais cinco vezes, anotando cada soma acima da anterior.

A convenção de qual face vale 3 varia entre autores. O que não pode variar é dentro da mesma consulta: escolha uma convenção e mantenha-a nos seis lançamentos.

A tabela dos quatro valores

SomaLinhaNome tradicionalNaturezaTorna-se
6partidavelho yinmutantelinha inteira
7inteirajovem yangestávelpermanece
8partidajovem yinestávelpermanece
9inteiravelho yangmutantelinha partida

O modo mais simples de guardar isso: números ímpares dão linha inteira, números pares dão linha partida; e os extremos, 6 e 9, são os que mudam.

5. Segundo método: as cinquenta varetas de milefólio

É o método tradicional, descrito no próprio livro. Leva de quinze a vinte minutos e usa cinquenta hastes finas, tradicionalmente do talo da planta milefólio, mas palitos de bambu ou varetas de madeira servem. A lentidão não é preciosismo: ela força um estado de atenção que o lançamento de moedas dispensa, e as probabilidades que ela produz são diferentes.

A preparação

Separe uma das cinquenta varetas e deixe-a de lado. Ela não participa do restante e não volta mais ao monte. Restam quarenta e nove.

A primeira operação

  1. Divida as quarenta e nove varetas em dois montes, ao acaso, sem contar.
  2. Retire uma vareta do monte da direita e coloque-a entre o dedo mínimo e o anular da mão esquerda.
  3. Conte o monte da esquerda de quatro em quatro, até restarem entre uma e quatro varetas. Coloque esse resto entre o anular e o dedo médio.
  4. Conte o monte da direita de quatro em quatro do mesmo modo e coloque o resto entre o médio e o indicador.
  5. O total que ficou entre os dedos será necessariamente 5 ou 9. Ponha esse conjunto de lado, separado.

A segunda e a terceira operações

  1. Junte as varetas que sobraram, que serão 44 ou 40, e repita exatamente o mesmo procedimento. Desta vez o total entre os dedos será 4 ou 8. Ponha de lado.
  2. Repita uma terceira vez com as que restaram, que serão 40, 36 ou 32. Novamente o resultado será 4 ou 8.

A leitura do valor

Ao fim das três operações restam no monte principal 36, 32, 28 ou 24 varetas. Divida esse número por quatro e você terá 9, 8, 7 ou 6, exatamente os mesmos quatro valores das moedas, com o mesmo significado.

Cada linha exige essas três operações, e o hexagrama exige seis linhas: dezoito operações no total, o que explica a duração do ritual.

Por que os dois métodos não são equivalentes

As moedas e as varetas produzem os mesmos quatro valores, mas não com a mesma frequência. Nas varetas, o velho yang é três vezes mais provável que o velho yin, o que reflete uma assimetria que a tradição considera significativa: a força que se esgota é mais comum que a entrega que se esgota. As moedas achatam essa diferença.

ValorLinhaTrês moedasCinquenta varetas
6velho yin, mutante2 em 161 em 16
7jovem yang6 em 165 em 16
8jovem yin6 em 167 em 16
9velho yang, mutante2 em 163 em 16

Na prática: use as moedas no dia a dia e as varetas quando a pergunta merecer o tempo do ritual.

6. A montagem da figura

O hexagrama se constrói de baixo para cima, como algo que brota do chão. O primeiro lançamento é a linha da base, chamada primeira linha, e o sexto é a linha do topo. Essa ordem não é convenção arbitrária: as posições têm significados fixos e o processo descrito pela figura se lê de baixo para cima, do início ao fim.

PosiçãoNomeO que a posição significa
6ª, topoLinha do topoO fim, o que já passou do auge. O sábio fora do cargo, que aconselha mas não comanda.
Quinta linhaO lugar do soberano. Centro da esfera pública, maior autoridade e maior responsabilidade.
Quarta linhaA proximidade do poder. Perto de quem decide sem ser quem decide; pede cautela e discrição.
Terceira linhaA transição do interior para o exterior. Posição exposta, de risco e de excesso.
Segunda linhaO centro da esfera privada. Onde a lealdade e a medida contam mais que a posição.
1ª, basePrimeira linhaO início ainda obscuro, de pouca força. O que se decide aqui condiciona todo o resto.

Identificada a figura pelos seus dois trigramas, procura-se o seu número no quadro oito por oito, que cruza o trigrama inferior com o superior. Ele está na página As 64 Figuras, e o estudo completo de cada uma está na Apostila.

7. As linhas mutantes e a segunda figura

Aqui está o coração do sistema, e é o que separa o I Ching de um sorteio comum.

As linhas que saíram 6 ou 9 estão tensionadas ao máximo. Uma linha yang que atingiu 9 já rendeu tudo o que a ação podia render; uma linha yin que atingiu 6 já rendeu tudo o que a entrega podia render. Nos dois casos, o extremo se converte no seu oposto. São essas as linhas mutantes.

Trocando cada linha mutante pelo seu contrário, e deixando as demais intactas, obtém-se um segundo hexagrama. A consulta passa então a ter três camadas.

Quando nenhuma linha muta, não há segunda figura. Isso não é uma consulta incompleta: é o oráculo dizendo que a situação é estável e que não há nada a forçar agora.

8. Em que ordem se lê

A ordem clássica de leitura da primeira figura é sempre a mesma: primeiro o Julgamento, que é a resposta do oráculo; depois a Imagem, que traz o conselho de conduta; depois o texto apenas das linhas mutantes, nunca o das outras; e por fim o Julgamento da segunda figura.

Quanto peso dar a cada camada depende de quantas linhas mutaram. A regra abaixo é atribuída a Zhu Xi, no século XII, e é a mais seguida.

Linhas mutantesO que se lê
NenhumaSomente o Julgamento e a Imagem da figura. Não há segunda figura.
UmaO texto dessa linha é a resposta central da consulta.
DuasAs duas linhas, com peso maior na superior.
TrêsOs Julgamentos das duas figuras, com peso maior no da primeira. A linha do meio das três serve de charneira.
QuatroAs duas linhas que não mutaram, lidas na segunda figura, com peso maior na inferior.
CincoA única linha que não mutou, lida na segunda figura.
SeisO Julgamento da segunda figura. Nos hexagramas 1 e 2 há, para este caso, um texto próprio.

Um erro comum

Ler o texto de todas as seis linhas. As linhas que não mutaram fazem parte da estrutura da figura, mas não estão falando com você nesta consulta. Ler todas dilui a resposta até que ela sirva para qualquer coisa, que é o modo mais rápido de tornar o oráculo inútil.

9. Um exemplo completo

Pergunta escrita antes do lançamento: como devo me conduzir no projeto que acabei de entregar?

LançamentoMoedasSomaLinhaPosição
cara, coroa, coroa7inteira, estávelprimeira linha, a base
coroa, coroa, coroa6partida, mutantesegunda linha
cara, cara, cara9inteira, mutanteterceira linha
cara, coroa, cara8partida, estávelquarta linha
coroa, cara, coroa7inteira, estávelquinta linha
coroa, coroa, cara7inteira, estávelsexta linha, o topo

Lendo de baixo para cima, as linhas são: inteira, partida, inteira, partida, inteira, inteira. O trigrama inferior, formado pelas três primeiras, é Fogo. O superior, formado pelas três últimas, é Vento. Fogo embaixo e Vento em cima é o hexagrama 37, o Clã.

Mutaram duas linhas, a segunda e a terceira. Trocando cada uma pelo seu contrário, as linhas passam a ser: inteira, inteira, partida, partida, inteira, inteira. O trigrama inferior vira Lago e o superior continua Vento: é o hexagrama 61, a Verdade Interior.

Como se lê esta consulta

  1. Julgamento e Imagem do hexagrama 37, que descrevem a situação atual: a ordem começa dentro de casa, com papéis claros, substância nas palavras e constância na conduta.
  2. Sendo duas as linhas mutantes, leem-se as duas, com peso maior na superior, isto é, na terceira linha, que ocupa a posição exposta da transição entre o interno e o externo.
  3. Julgamento do hexagrama 61, que aponta a direção: uma sinceridade que alcança até o que parecia impenetrável e convence sem precisar de argumento.

A resposta, reunida, diz algo como: a situação está sustentada por uma ordem interna que funciona, o ponto de tensão está justamente na passagem do âmbito interno para o externo, e o que sustenta essa passagem não é a demonstração de força, e sim a sinceridade com que a coisa for apresentada.

10. Erros comuns

11. Ética da consulta

Quem consulta para si assume a responsabilidade pelo que decidir depois. O oráculo não decide, não autoriza e não exime. Quando a consulta é feita para outra pessoa, há três cuidados que a tradição trata como inseparáveis do método.