Yijing · 易經 · Livro das Mutações
Regras e passo a passo da consulta
Como se formula a pergunta, como se lançam as moedas ou as varetas, como se monta a figura de baixo para cima, o que são as linhas mutantes e em que ordem se lê o que apareceu.
O I Ching não é um aparelho de previsão. Ele não diz o que vai acontecer, e quem o usa esperando isso sai sempre frustrado ou iludido. O que o livro faz é descrever a qualidade do momento presente e a direção em que esse momento tende a se transformar, deixando para quem consulta a tarefa de reconhecer a própria situação naquela descrição.
O sistema parte de uma ideia única: nada é estático. A realidade é um jogo permanente entre dois princípios, o yang (criativo, luminoso, ativo) e o yin (receptivo, escuro, cedente), e toda situação é um arranjo momentâneo dessas forças, já em processo de virar outra coisa. As sessenta e quatro figuras do livro são as sessenta e quatro maneiras possíveis de arranjar seis dessas linhas. Não há uma sexagésima quinta.
A consulta é um espelho, não uma sentença. O oráculo devolve a pergunta transformada em imagem, e o trabalho interpretativo continua sendo de quem perguntou.
Carl Jung, ao prefaciar a tradução de Richard Wilhelm, criou o conceito de sincronicidade justamente para descrever o que ali acontece: não uma causa produzindo um efeito, mas uma correspondência significativa entre o estado interno de quem pergunta e um gesto aparentemente aleatório. Aceitar ou não essa explicação é uma escolha de cada um. O método, em todo caso, é o mesmo.
Esta é a parte mais decisiva do método e a mais negligenciada. A qualidade da resposta é limitada pela qualidade da pergunta, e a maioria das consultas frustradas fracassa aqui, e não no lançamento.
O I Ching responde mal a perguntas de sim ou não, porque ele não trabalha com duas alternativas, e sim com a descrição de um campo de forças. Responde mal a perguntas sobre o que outra pessoa vai fazer, porque a única situação que ele descreve é a de quem consulta. E responde mal a perguntas com data marcada, porque a noção de tempo do livro é qualitativa: ele fala de estações de um processo, não de calendário.
Perguntas que funcionam
Perguntas que não funcionam
Escreva a pergunta antes de lançar, com todas as letras. Escrever obriga a precisar o que se quer saber, e é comum que a pergunta mude de forma durante a escrita, o que já é metade do trabalho. Uma pergunta por consulta.
A unidade mínima. Ou é inteira, e então é yang, ou é partida ao meio, e então é yin. Nada além disso.
Três linhas empilhadas. Como cada uma tem dois estados possíveis, há oito trigramas, e apenas oito. São eles que carregam as imagens naturais do sistema, e todo o simbolismo do livro se apoia nelas.
| Trigrama | Nome | Imagem | Atributo | Linhas, de baixo para cima |
|---|---|---|---|---|
| 乾 Qián | O Criativo | Céu | Força, iniciativa | inteira, inteira, inteira |
| 兌 Duì | O Alegre | Lago | Serenidade, prazer | inteira, inteira, partida |
| 離 Lí | O Aderente | Fogo | Clareza, dependência | inteira, partida, inteira |
| 震 Zhèn | O Incitar | Trovão | Movimento, choque | inteira, partida, partida |
| 巽 Xùn | O Suave | Vento | Penetração, docilidade | partida, inteira, inteira |
| 坎 Kǎn | O Abismal | Água | Perigo, profundidade | partida, inteira, partida |
| 艮 Gèn | A Quietude | Montanha | Imobilidade, repouso | partida, partida, inteira |
| 坤 Kūn | O Receptivo | Terra | Entrega, sustentação | partida, partida, partida |
Dois trigramas sobrepostos: o de baixo, chamado interior, que descreve o que se passa dentro de quem consulta ou o que está em formação; e o de cima, chamado exterior, que descreve o que se apresenta ao mundo ou o que já se manifestou. Oito trigramas embaixo multiplicados por oito em cima resultam em sessenta e quatro figuras.
Cada uma delas tem nome, um texto chamado Julgamento, que é a resposta do oráculo à situação, um texto chamado Imagem, que traz sempre um conselho de conduta tirado da combinação dos dois trigramas, e o texto de cada uma das suas seis linhas, num total de trezentas e oitenta e quatro linhas no livro inteiro.
É o método mais usado hoje, e o mais rápido. Leva cerca de dois minutos. Servem três moedas iguais, de qualquer tipo, embora a tradição prefira as antigas moedas chinesas de bronze com furo quadrado no meio.
A convenção de qual face vale 3 varia entre autores. O que não pode variar é dentro da mesma consulta: escolha uma convenção e mantenha-a nos seis lançamentos.
A tabela dos quatro valores
| Soma | Linha | Nome tradicional | Natureza | Torna-se |
|---|---|---|---|---|
| 6 | partida | velho yin | mutante | linha inteira |
| 7 | inteira | jovem yang | estável | permanece |
| 8 | partida | jovem yin | estável | permanece |
| 9 | inteira | velho yang | mutante | linha partida |
O modo mais simples de guardar isso: números ímpares dão linha inteira, números pares dão linha partida; e os extremos, 6 e 9, são os que mudam.
É o método tradicional, descrito no próprio livro. Leva de quinze a vinte minutos e usa cinquenta hastes finas, tradicionalmente do talo da planta milefólio, mas palitos de bambu ou varetas de madeira servem. A lentidão não é preciosismo: ela força um estado de atenção que o lançamento de moedas dispensa, e as probabilidades que ela produz são diferentes.
Separe uma das cinquenta varetas e deixe-a de lado. Ela não participa do restante e não volta mais ao monte. Restam quarenta e nove.
Ao fim das três operações restam no monte principal 36, 32, 28 ou 24 varetas. Divida esse número por quatro e você terá 9, 8, 7 ou 6, exatamente os mesmos quatro valores das moedas, com o mesmo significado.
Cada linha exige essas três operações, e o hexagrama exige seis linhas: dezoito operações no total, o que explica a duração do ritual.
As moedas e as varetas produzem os mesmos quatro valores, mas não com a mesma frequência. Nas varetas, o velho yang é três vezes mais provável que o velho yin, o que reflete uma assimetria que a tradição considera significativa: a força que se esgota é mais comum que a entrega que se esgota. As moedas achatam essa diferença.
| Valor | Linha | Três moedas | Cinquenta varetas |
|---|---|---|---|
| 6 | velho yin, mutante | 2 em 16 | 1 em 16 |
| 7 | jovem yang | 6 em 16 | 5 em 16 |
| 8 | jovem yin | 6 em 16 | 7 em 16 |
| 9 | velho yang, mutante | 2 em 16 | 3 em 16 |
Na prática: use as moedas no dia a dia e as varetas quando a pergunta merecer o tempo do ritual.
O hexagrama se constrói de baixo para cima, como algo que brota do chão. O primeiro lançamento é a linha da base, chamada primeira linha, e o sexto é a linha do topo. Essa ordem não é convenção arbitrária: as posições têm significados fixos e o processo descrito pela figura se lê de baixo para cima, do início ao fim.
| Posição | Nome | O que a posição significa |
|---|---|---|
| 6ª, topo | Linha do topo | O fim, o que já passou do auge. O sábio fora do cargo, que aconselha mas não comanda. |
| 5ª | Quinta linha | O lugar do soberano. Centro da esfera pública, maior autoridade e maior responsabilidade. |
| 4ª | Quarta linha | A proximidade do poder. Perto de quem decide sem ser quem decide; pede cautela e discrição. |
| 3ª | Terceira linha | A transição do interior para o exterior. Posição exposta, de risco e de excesso. |
| 2ª | Segunda linha | O centro da esfera privada. Onde a lealdade e a medida contam mais que a posição. |
| 1ª, base | Primeira linha | O início ainda obscuro, de pouca força. O que se decide aqui condiciona todo o resto. |
Identificada a figura pelos seus dois trigramas, procura-se o seu número no quadro oito por oito, que cruza o trigrama inferior com o superior. Ele está na página As 64 Figuras, e o estudo completo de cada uma está na Apostila.
Aqui está o coração do sistema, e é o que separa o I Ching de um sorteio comum.
As linhas que saíram 6 ou 9 estão tensionadas ao máximo. Uma linha yang que atingiu 9 já rendeu tudo o que a ação podia render; uma linha yin que atingiu 6 já rendeu tudo o que a entrega podia render. Nos dois casos, o extremo se converte no seu oposto. São essas as linhas mutantes.
Trocando cada linha mutante pelo seu contrário, e deixando as demais intactas, obtém-se um segundo hexagrama. A consulta passa então a ter três camadas.
Quando nenhuma linha muta, não há segunda figura. Isso não é uma consulta incompleta: é o oráculo dizendo que a situação é estável e que não há nada a forçar agora.
A ordem clássica de leitura da primeira figura é sempre a mesma: primeiro o Julgamento, que é a resposta do oráculo; depois a Imagem, que traz o conselho de conduta; depois o texto apenas das linhas mutantes, nunca o das outras; e por fim o Julgamento da segunda figura.
Quanto peso dar a cada camada depende de quantas linhas mutaram. A regra abaixo é atribuída a Zhu Xi, no século XII, e é a mais seguida.
| Linhas mutantes | O que se lê |
|---|---|
| Nenhuma | Somente o Julgamento e a Imagem da figura. Não há segunda figura. |
| Uma | O texto dessa linha é a resposta central da consulta. |
| Duas | As duas linhas, com peso maior na superior. |
| Três | Os Julgamentos das duas figuras, com peso maior no da primeira. A linha do meio das três serve de charneira. |
| Quatro | As duas linhas que não mutaram, lidas na segunda figura, com peso maior na inferior. |
| Cinco | A única linha que não mutou, lida na segunda figura. |
| Seis | O Julgamento da segunda figura. Nos hexagramas 1 e 2 há, para este caso, um texto próprio. |
Ler o texto de todas as seis linhas. As linhas que não mutaram fazem parte da estrutura da figura, mas não estão falando com você nesta consulta. Ler todas dilui a resposta até que ela sirva para qualquer coisa, que é o modo mais rápido de tornar o oráculo inútil.
Pergunta escrita antes do lançamento: como devo me conduzir no projeto que acabei de entregar?
| Lançamento | Moedas | Soma | Linha | Posição |
|---|---|---|---|---|
| 1º | cara, coroa, coroa | 7 | inteira, estável | primeira linha, a base |
| 2º | coroa, coroa, coroa | 6 | partida, mutante | segunda linha |
| 3º | cara, cara, cara | 9 | inteira, mutante | terceira linha |
| 4º | cara, coroa, cara | 8 | partida, estável | quarta linha |
| 5º | coroa, cara, coroa | 7 | inteira, estável | quinta linha |
| 6º | coroa, coroa, cara | 7 | inteira, estável | sexta linha, o topo |
Lendo de baixo para cima, as linhas são: inteira, partida, inteira, partida, inteira, inteira. O trigrama inferior, formado pelas três primeiras, é Fogo. O superior, formado pelas três últimas, é Vento. Fogo embaixo e Vento em cima é o hexagrama 37, o Clã.
Mutaram duas linhas, a segunda e a terceira. Trocando cada uma pelo seu contrário, as linhas passam a ser: inteira, inteira, partida, partida, inteira, inteira. O trigrama inferior vira Lago e o superior continua Vento: é o hexagrama 61, a Verdade Interior.
Como se lê esta consulta
A resposta, reunida, diz algo como: a situação está sustentada por uma ordem interna que funciona, o ponto de tensão está justamente na passagem do âmbito interno para o externo, e o que sustenta essa passagem não é a demonstração de força, e sim a sinceridade com que a coisa for apresentada.
Quem consulta para si assume a responsabilidade pelo que decidir depois. O oráculo não decide, não autoriza e não exime. Quando a consulta é feita para outra pessoa, há três cuidados que a tradição trata como inseparáveis do método.